quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Manifesto artístico, político, cultural, antropofágico... e lá vai a 4. Odara: a nudez não será mais castigada.


Viemos falar de Odara, que na língua de nossos antepassados yorubanos quer dizer “o bom e o belo”, como naquela velha idéia grega. E por falar em antepassados, esses negros de toda a África, esses índios, esses portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, ingleses, norte-americanos, entre os povos dos continentes, viemos falar também de antropofagia, em comer ‘carne’ humana e com ela ingerir o homem e exuberar a criatividade. Ah, viemos comer, comer e vomitar, amar, deitar o chapéu em uma orgia consagrada aos grandes deuses, Dioniso, Jesus Cristo, Alá, Tupã, e o que vier. É o amor que salta aos olhos do povo, a única solução para o que estamos a perder. Nossa Odara, acontecimento artístico, instalação performática, festa-movimento-teatro, é por onde passa a realidade do homem, da arte como essência humana, motivo de ser, da arte de todos, do existir em conjunto em produção celestial. Vamos, porque perdemos tanta energia nos caminhos de desacertos? Já é provado que o modo de vida social típico desgasta a consciência, os sentimentos, as relações. Demo-nos então a arte da elevação conjunta, demo-nos a sorte da alegria, Deus e o demo estão mortos, resta-nos nenhuma dialética, a não ser antropofágica. Até demo nos amores.
Em um grande movimento dionisíaco vamos então saldar o prazer, a intoxicação, a fantasia, a arte, os deuses que quando em transe levam o humano a plenitude. Aqueles iniciados no culto a Dionísio, usavam máscaras, símbolos da submersão da sua identidade no outro, o transe dionisíaco! Através desta fusão de identidades poder-se-ia libertar de todos os pudores. Estes transes eram uma purificação de suas inibições, uma catarse coletiva, a fundição total de todos seres. No ritual toda a sua individualidade deveria ser dada ao Deus, oferecida e queimada no fogo embriagante do vinho, do sexo, dos prazeres. Não cultuaremos somente Dionísio, ou qualquer outra entidade dos céus em específico, mas traremos para a terra todos os santos, os deuses, os demónios, os espíritos, que se misturem a nós, seres racionais produtores de artes, perguntemos a eles e exijamos deles que, uma vez aqui na terra, produzam toda a sorte de coisas boas e belas, se não, sigam seu caminho, longe dos homens, que é melhor irem para outra região do universo, outro cosmos, outro sistema solar, que atazane outros espíritos, não esses homens de agora, que acabam de descobrir seus caminhos.
Viva o erótico, o romântico, o apaixonado. Viemos saldar o desejo e a sua libertação, acabemos agora com a moral cristã da carne, com o discurso higienizador do cientificismo, o machismo, a heteronormatividade, o racismo... Pratiquemos o amor. Eros, filho da pobreza e do grandioso Póros, gênio devorador, desça aqui no chão. Lembremos de Eshu, deus yorubano, que de tanto comer foi lhe dado os domínios do ayê, mundo material, do erotismo e do prazer. Nos domínios das práticas eróticas o individuo pode realizar a si mesmo enquanto ser humano.
Este é um manifesto contra a culpa, sentimento repulsivo que nos impede de ‘ser’ e ‘estar’ humanos. Um manifesto à nudez, em todos os seus âmbitos, a nudez dos índios de nossa terra, a nudez do negro, d@s mulat@s, a nudez como transparência, abertura ao novo e até mesmo a nudez popular estampada efemeramente em todas as revistas espalhadas pelo  mundo, este é o Brasil, nu.
Este é um elogio ao marginalizado, a tudo aquilo que é considerado vergonhoso. É uma tentativa de reformulação da moral hipócrita praticada diariamente por todos os seres humanos. Fiquemos nus e amemos. Orgástica é também essência humana. Façamos um elogio ao cu, à buceta, ao cacete. Ao sexo anal, vaginal, oral, sado-masoquista; à punheta, à ciririca. Às travestis, transexuais, bichas, maconheiras, sapatões, heterossexuais. À Humanidade.
Este é um manifesto à beleza, em si, dos corpos, dos prazeres e dos amores. Por meio da libertação corporal e espiritual alcançar a beleza e libertá-la. Propomos um caos artístico e intelectual, desconstruir para reconstruir e ressignificar o mundo. Uma subversão poética e moral. “Soltar a franga, trazer a gelatina emocional!”